CORREIO
POPULAR
O
saudoso e o saudosista
02/08/2013
- 05h00 | Cecilío
O ser
humano já nasce com saudade. Pois se afasta do ninho cálido
onde esteve durante nove meses, o lugar seguro e protetor,
no qual foi cuidado e amado. Cadê a união que lhe parecia
eterna com a cuidadora? Cadê o mundo somente seu, o útero
materno? Basta sair e a saudade o acompanhará. Para sempre.
Outros dizem ser, a saudade do homem, a memória ancestral do
Paraíso Perdido. Que tolice foi a de perder o Éden, a troco de
quê? Por isso, toda a saudade traz ressaibos de um amargor
agridoce. Só se tem saudade daquilo ou daqueles que foram bons,
do bem, de momentos ou tempos ou lugares agradáveis, prazerosos.
Por isso, a definição — atribuída a Ruy Barbosa — de que
“saudade é a vontade de outra vez”. De, pelo menos, mais uma
vez. De rever alguém, de reviver algo, de recuperar talvez um
elo perdido. Ou de, até mesmo, tentar descobrir se aquele
encantamento foi um belo sonho ou se realmente existiu.
Já
se nasce, pois, com saudade. E o homem se constrói, ao longo da
vida, como um ser saudoso. As crianças são saudosas e nos
emocionam quando elas próprias o confessam. De uma amiga muito
querida, recebi o relato de um episódio comovente, ela e o neto.
Lá se pôs a avó — embevecida com o garoto de oito anos que a
visitava — a acarinhá-lo, a lhe fazer agrados. E lhe propôs
cantarem juntos algumas musiquinhas de anos anteriores. E
cantarolou: “Boi, boi, boi/ boi da cara preta/ pega o G... que
tem medo de careta”.
O
netinho, porém, a interrompeu, com olhar distante: “Vó, essa
não. Essa música me deixa triste.” Minha amiga, a avó,
estranhou e lhe perguntou o porquê da tristeza se, antes, ele
tanto gostava da cantiga. E o menino respondeu: “É porque você
cantava para mim quando eu era pequenino. Me dá saudade. Eu
cresci, né, vovó?” Lá estava, pois, outro pequenino ser
humano já sendo construído pelos fios invisíveis da saudade.
Infelizmente,
confunde-se saudade com saudosismo, e o saudoso com o saudosista.
Saudosismo e saudosistas estão fixos no passado e em realidades
que não mais são aceitas. Querem presentificar o passado,
torná-lo real. E isso nasce de uma filosofia de origem
portuguesa — com esse mesmo nome, Saudosismo — que pretendia
reconstruir Portugal a partir do passado, a que deram o nome de
“saudade revelada”. O movimento elevava essa saudade à
altura de uma religião, de uma filosofia, de uma política. E,
com isso, buscava criar uma alma nacional portuguesa. Seria um
“Sebastianismo Esclarecido”, relevado e cantado por poetas e
filósofos. Até o imortal Fernando Pessoa chegou a fazer parte
desse movimento. Mas o Saudosismo morreu exatamente por ser
saudosista. E lá me pergunto eu: a melancólica alma portuguesa
— que forma também a nossa — é saudosa ou saudosista?
Não
acredito em pessoas que dizem não ter saudade de algo ou de
alguém. Não creio nos que negam ser saudosos nem que seja
daquilo que não conseguem explicar. Ou mentem se o afirmam, ou
mentem para si mesmos. A saudade, parece-me, é um universo
espiritual concentrando o bom e o belo da vida que trazemos
conosco. A saudade é nossa própria história, nas páginas mais
belas, generosas e cândidas. E, estranhamente, é feita de uma
tristeza suave que — muitas vezes, doendo — faz reviver. É
como chorar sorrindo. Ou derramar lágrimas para bebê-las como
se fossem gotas de mel. Saudade são lembranças guardadas no
coração, mesmo que esquecidas pela mente.
O
saudosismo, no entanto, está apenas na razão. Algo pétreo,
paralisante, como se o homem fosse senhor do tempo e pudesse
detê-lo ou avançá-lo. Ou mantê-lo inalterável. O saudosista
tem alma fechada, como se o medo ou a covardia o impedissem de
viver a grande aventura de viajar através do tempo. O
saudosista permanece, fica. O saudoso, por sua vez, voa, vai e
volta, traz e devolve, revive como se estivesse vivendo pela
primeira vez. O saudoso tem o poder de, ao se lembrar e recordar,
inventar tudo de novo. E fazer com que o agora se torne vivo como
o passado. Ao passo que o saudosista quer dar vida ao passado
recusando o agora.
De
minha parte, assumo, com alegria, minha condição humana de
saudoso. Sou feito de toda a saudade que me acompanha. E é essa
saudade que me ajuda a enxergar a beleza do agora e a ter
esperança no amanhã. Tenho saudade imensa de quando, num banco
de jardim, toquei nas mãos da primeira namorada. E essa saudade
me permite, ainda agora, tocar com emoção as mãos de minha
mulher. Ela não é a primeira. Mas sei que será a última.
Posso viver o encantamento disso por tê-lo vivido anteriormente.
A beleza do antes ressurge agora. Saudade, pois, é como
primavera que, a cada retorno, é sempre original em seu
esplendor.
O
saudosista quer viver do passado. O saudoso faz, do passado,
fonte de vida.
TAGS
| Cecílio, colunista, Correio
Popular
|